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[Opinião] O que fica de 2010: Janeiro - O plágio dos Homens da Luta

Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011


Imagem(c): vaitudoabaixo.com


O final de um ano é por excelência um momento de retrospectiva, de olhar para trás, fazer contas à vida e recordar os momentos mais importantes por que passámos, individualmente ou enquanto comunidade.

O ano de 2010, para um eurofã, foi rico em acontecimentos, em polémicas, em momentos marcantes. Não terá sido um ano decisivo, nem sequer definidor. Muitas vezes dividiu-nos, mas sobretudo uniu-nos no nosso desígnio comum e manteve acesa a esperança que partilhamos. Ainda não foi desta, mas já estivemos mais longe.

Pessoalmente, 2010 fica na minha história por ter sido o primeiro Festival da Canção a que assisti ao vivo. E dificilmente poderei esquecer a intensidade com que tudo se desenrolou: os ensaios, as reportagens, as entrevistas, o convívio com os artistas e os outros fãs, as expectativas, o nervosismo, os problemas técnicos, os improvisos, a competição, as polémicas, a frustração, a irracionalidade das claques, o cansaço, a sensação de dever cumprido…

Mas adianto-me. Afinal, como todos os anos, 2010 começou em Janeiro


Os Homens da Luta

2010 começou com a habitual especulação, e posterior revelação, dos artistas concorrentes ao Festival da Canção. Entre velhas glórias e sangue novo, o grande destaque foi para o número humorístico dos Homens da Luta, que desde o primeiro dia lideraram a votação online, para exasperação dos eurofãs mais clássicos.

Os Homens da Luta pretendiam ser irreverentes, revolucionários, uma lufada de ar fresco e fugir ao clássico modelo das canções festivaleiras. Esqueceram-se no entanto de que para fazer uma revolução é preciso conhecer o sistema. Ignoraram o regulamento do concurso e foram desclassificados porque o tema Luta assim não dá já tinha sido apresentado publicamente antes da data regulamentar.

Mas há pior. Caso não tivesse sido decidida a exclusão dos Homens da Luta por incumprimento das datas, muito provavelmente a desclassificação aconteceria por outro motivo bem mais grave: o tema Luta assim não dá é um plágio.

Não sei como é que esta situação escapou ao escrutínio dos produtores e compositores, encarregues pela RTP de seleccionar as canções a concurso, até porque não se trata apenas de dois ou três acordes, mas do refrão inteiro (pelo menos).



A composição plagiada intitula-se Lá no Xepangara e é da autoria de José Afonso, estando integrada no álbum Coro dos Tribunais, editado em 1975. É ouvir e comparar:




Mais dificil de sustentar é a eventual desatenção dos Homens da Luta. Afinal todo o seu conceito é baseado na estética particular dos cantores de intervenção, que tem em Zeca Afonso o seu paradigma. E há uma diferença enorme, abissal, entre a utilização de uma referência inspiradora e a apropriação indevida e não assumida de uma criação alheia, seja em parte, seja no seu todo.

Posteriormente à desqualificação os Homens da Luta ameaçaram voltar a tentar em 2011. Pela minha parte serão bem-vindos. Só espero que desta vez leiam o regulamento com atenção e façam melhor o trabalho de casa. E que apresentem uma canção original, se não for pedir muito.

[Opinião] EuroFlan: Então e os blocos?

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010



As semanas que se sucedem ao Festival Eurovisão da Canção, tradicionalmente, são pouco preenchidas por verdadeiros acontecimentos, mas ricas em declarações, avaliações, interpretações e, sobretudo, análises das votações e resultados obtidos por cada país, à mistura com alegações e acusações relacionadas com o sistema de votação e os sempre polémicos temas da diáspora e do voto tendencioso.

Como é público, este ano a organização do FEC introduziu alterações no sistema de votação, alargando a regra dos 50/50 (júri/televoto) à Final, numa tentativa de diminuir os efeitos perniciosos e injustos de um televoto condicionado pelas comunidades imigrantes e pela solidariedade entre países vizinhos.

Em princípio, a introdução de jurados profissionais, ligados à indústria musical, garantiria uma avaliação mais isenta das canções a concurso e, à partida, a vitória de um país como a Alemanha, que não costuma estar integrado em nenhum dos blocos geopolíticos, seria uma evidência do sucesso desta opção.

Afinal a canção alemã foi a mais votada na generalidade destes blocos (com apenas uma excepção), deixando a concorrência a uma distância confortável, com uma solidez que só poderá ter sido conseguida com o acordo entre jurados e telespectadores.

Mas olhando em pormenor para o quadro de votações e para a tabela de resultados, esta evidência deixa de ser tão clara. Ao agrupar os votos dos países que se incluem tradicionalmente nos vários blocos geopolíticos, fica a sensação amarga de que alguns jurados não actuaram com a isenção e profissionalismo devidos. Vamos a factos.


Ocidente vs. Leste

As fronteiras aqui são claras e não se definem apenas pelas linhas desenhadas nos mapas. Existem padrões de voto tradicionais que dividem o continente europeu em ocidente e oriente. A “cortina de ferro” da Guerra Fria desabou há anos, mas parece manter-se o seu fantasma na Eurovisão.

A oeste da Alemanha (inclusive) não parece haver um padrão claro e os resultados não estão muito longe do desfecho global. Ainda assim, contabilizando apenas os votos destes países, a Bélgica acabaria no 2º lugar, a Grécia subiria ao 4º posto, a França ao 7º, a Irlanda terminaria em 18º, mas os maiores beneficiados seriam a Islândia e Portugal, que escalariam até ao 11º e 12º lugares, respectivamente.

Em sentido oposto, a Turquia desceria 3 lugares, tal como o Azerbaijão, mas o grande descalabro estaria destinado a países como a Geórgia, que cai do 9º para o 16º lugar, a Ucrânia, tombando para a 19ª posição, e a Rússia que ficaria arredada para o 24º lugar, apenas “superada” pela Bielorrússia, ostensivamente ignorada com 0 pontos e a última posição.

Mas em sentido contrário a polarização é ainda mais evidente: embora a Alemanha continue como vencedora destacada, o restante top 10 é dominado pelos países do leste europeu, apenas com a Dinamarca como intrusa, no 8º lugar. A Geórgia é o segundo país mais votado, seguida do Azerbaijão, Turquia, Arménia, Ucrânia e Rússia.

Já a Islândia cairia até ao 24º lugar, imediatamente abaixo de Irlanda e Portugal. A representação da França também não parece ter caído nas boas graças do leste da Europa, tombando 10 posições.


O Bloco Balcânico



O núcleo deste bloco é constituído pelos países da ex-Jugoslávia (Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovénia, Macedónia), mas atentando aos padrões de voto, podemos incluir, sem grandes hesitações, a Albânia, a Grécia, a Bulgária e a Turquia.

E se restarem dúvidas basta olhar para o resultado do voto destes países. A Alemanha é a vencedora, mas a partir daí os votos ficam todos na região: a Turquia é segunda, seguida da Bósnia, Albânia, Sérvia e Grécia. Fica claro que estes países votam em bloco e, consequentemente, é em bloco que ocupam a tabela final.

Quem não mereceu os favores dos balcânicos foram a Bélgica, com um clamoroso 16º lugar, e a Dinamarca, que tomba para 13º. Mas mais surpreendente é verificar que a suposta ligação entre o bloco balcânico e o bloco ex-soviético cai por terra. Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia são relegadas para o final da tabela.


O Bloco ex-Soviético



A URSS deixou de existir há anos, mas a ligação umbilical da Ucrânia, Bielorrússia, Moldova, Geórgia, Arménia, Azerbaijão e do mini-bloco do báltico – Estónia, Letónia e Lituânia, - à Grande Mãe Rússia está bem viva.

E neste bloco de países há pouco espaço para apreciações profissionais e isentas. A Alemanha é relegada para o 4º lugar, deixando a primeira posição para a Geórgia, seguida da Rússia e da Ucrânia. Azerbaijão e Arménia ocupam, respectivamente, o 5º e 6º postos. Também a Bielorrússia e a Moldávia são beneficiadas, ascendendo ao 13º e 15º lugares, respectivamente.

A França tem pouco acolhimento entre os satélites russos, descendo para o 17º lugar, ao contrário da Espanha que sobe para 9º. Mas mais relevante é a confirmação da pouca solidariedade entre o bloco ex-soviético e o bloco balcânico: a Turquia cai para 7º, a Grécia para 19º, e o último lugar está reservado, ex-aequo, para a Albânia, a Sérvia e a Bósnia, com eloquentes 0 pontos.


O Bloco Nórdico



Muitos comentadores acusam os países de leste de votação em bloco, o que é evidente, mas parecem esquecer que muito antes da entrada destes países na Eurovisão, estas manifestações de solidariedade entre vizinhos já existiam, descaradamente, entre os países que compõem o bloco nórdicoNoruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia. E ao apreciar os padrões de voto não será descabido juntar-lhes a Irlanda e o Reino Unido.

Embora este seja, talvez, o bloco menos evidente e menos pernicioso, não deixa de ser merecedor de algumas considerações.

A Alemanha volta a ser a clara vencedora, mas o 2º lugar passa a ser ocupado pela Dinamarca, relegando a Turquia para a 6ª posição. A Noruega voa do 20º para o 10º lugar, logo seguida da Islândia em 11º. Também a Irlanda sai beneficiada com um 14º posto, e o Reino Unido deixa o último lugar, terminando em 21º.

França e Israel beneficiam da simpatia dos nórdicos, ascendendo até ao 7º e 9º lugares respectivamente. Em sentido contrário, o Azerbaijão desce para o 12º posto, a Arménia para o 21º, deixando o último lugar, sem qualquer ponto, para a Bósnia, a Bielorrússia e a Moldávia.


Finalistas

Para terminar é possível analisar qual seria o resultado se apenas os países que participaram na final tivessem a oportunidade de votar.

As alterações à tabela, neste caso, são pouco significativas, limitando-se a trocas de posição, com pequenas subidas ou descidas.

O país mais beneficiado seria a Grécia, que obteria o 3º lugar, abaixo da Alemanha, em primeiro, e Roménia em 2º. Já a Turquia desceria para a 4ª posição, mas o país que registaria a maior queda seria a Dinamarca, não indo além do 10º lugar.

A última posição continuaria a cargo do Reino Unido, e Portugal manteria o 18º lugar.


E então?

Então as conclusões parecem-me óbvias. Os blocos existem, sempre existiram, e vão continuar a existir. São mais evidentes nos resultados do televoto, mas não são alheios aos ditos jurados profissionais. E estão longe de ser um exclusivo dos países de leste.

A introdução dos júris permitiu atenuar o efeito negativo dos votos da diáspora e entre países vizinhos, mas dificilmente o conseguira eliminar. Até porque este efeito é resultado não apenas de alegadas alianças geopolíticas, mas sobretudo de fortes ligações entre populações que partilham, muitas vezes, afinidades históricas, culturais e linguísticas. Pode não ser justo, mas é compreensível e incontornável.

Mais relevante do que a introdução dos júris foi a fragmentação dos blocos nas duas semi-finais.

Em todo o caso estamos a falar de um concurso de canções entre países. Há inúmeros aspectos a ter em conta na avaliação dos resultados. E se é certo que fica patente que nem todas as classificações são justas, também é verdade que estamos a navegar numa área altamente subjectiva. E os gostos discutem-se, claro que sim.

O facto é que, no somatório final, ganhou a canção, a intérprete, a apresentação, que mais se aproximou dos gostos musicais dos europeus, profissionais da industria musical ou simples telespectadores, que os estimulou a participar e a votar. Ganhou o país que, através da música, se conseguiu sobrepor a blocos, nacionalismos e diásporas. Parabéns à Alemanha.

[Opinião] EuroFlan: Eurovisiologia I

Terça-feira, 13 de Abril de 2010




A Astrologia é um grupo de sistemas, tradições e crenças que alega que as posições relativas dos corpos celestes podem influenciar a personalidade, as relações humanas, e outros assuntos mundanos. Um praticante de astrologia é chamado astrólogo. Os cientistas consideram a astrologia uma pseudo-ciência ou superstição, uma vez que esta não dá provas da eficácia dos seus métodos.



A Eurovisiologia é basicamente a mesma coisa mas, em vez de corpos celestes (planetas), tem nas relações entre os países europeus, no âmbito do Festival da Eurovisão, o seu objecto de análise. Já o objectivo é exactamente o mesmo: prever o futuro.

Não há site eurovisivo, digno desse nome, que não tenha, pelo menos, um eurovisiólogo de serviço, especialista na análise histórica das tendências de voto, profundo conhecedor das ciências musicais, voz oracular particularmente sensível aos movimentos de massas (“o povo português prefere…”, “os europeus adoram…”, “os júris votam sempre em”…).

Outra característica dos eurovisiólogos é uma vida social incipiente e aborrecida: não têm nada melhor para fazer do que passar os dias a rever as actuações da Carola ou do Sakis Rouvas, no youtube, e a expressar os seus juízos absolutos e opiniões inquestionáveis pelos fóruns, blogues e caixas de comentários.

O ESC Portugal, como legítimo representante de todo o povo eurovisivo português (para os distraídos: não, ainda não saí do registo irónico), não foge a estas regras e terá neste espaço de opinião um oráculo e um guia para os eurofãs menos convictos ou mais preguiçosos.

Como eurovisiólogo o meu objectivo é apenas um: prever quem vai ganhar o Festival da Eurovisão 2010. Ou, pelo menos, qual o país que tem melhores hipóteses de o conseguir. Ao contrário de anos anteriores, em 2010 não há um vencedor antecipado, pelo que a tarefa é pantanosa.

E como não tenho jeito nenhum para criar suspense, revelo desde já que, de acordo com os meus estudos profundos, o grande vencedor do Festival da Eurovisão 2010 será…

O Azerbaijão!


Foto: Wikipedia

País: Azerbaijão

Língua: A oficial é o azeri, mas a mais utilizada é o inglês macarrónico.

Ascendente: Turquia (12 pontos. Sempre!)

Países compatíveis: Turquia, Rússia e todos os restantes do bloco ex-soviético.

Países opostos: Arménia e Geórgia (vizinhança difícil).

Diáspora: Reza a lenda que tem imensos imigrantes por essa Europa fora, mas a verdade é que a maioria esmagadora está na Rússia (3 milhões), pelo que dificilmente pode dominar o televoto europeu. Quanto muito são os irmãos turcos a votar por eles. Ou então os europeus votam muito, mas têm vergonha de admitir, mesmo sob anonimato, que adoram pimba do Cáucaso.

Previsão para 2010

Dinheiro: Muito! A exploração de petróleo e gás natural garantem ao Azerbaijão uma grande liquidez financeira. Recentemente surgiram insinuações de corrupção, alegando de que o Azerbaijão teria comprado a vitória no ESC. Não me parece credível.

A verdade é que de acordo com os boatos que correm pelo meio o Azerbaijão terá investido qualquer coisa como 1 000 000 € (sim, um milhão de euros!) na produção de Drip Drop e na actuação de Safura. Na equipa de produção e folha de pagamentos estão nomes como Anders Bagge, (um importante produtor sueco, em cujo estúdio gravaram, por exemplo, Lara Fabian, Celine Dion, Enrique Iglesias, Jennifer Lopez ou Madonna), Niklas Flyckt (vencedor de um Grammy pelo tema Toxic, de Britney Spears) e, mais recentemente, JaQuel Knight, (o coreógrafo responsável pelas actuações ao vivo de Beyoncé e Britney Spears, e actual colaborador do programa American Idol).

Poderia ser cínico, e dizer que isto é uma forma de comprar a Eurovisão. E é, mas de uma forma legal e legítima. Mas é sobretudo uma forma de dizer ao mundo que o Azerbaijão quer mesmo muito ganhar.

Por outro lado a UER tem uma enorme dívida para com o Azerbaijão: o cancelamento do Eurovision Dance Contest, que teria lugar em Baku. As expectativas e o entusiasmo dos azeris eram enormes. Não sabemos de que forma a UER propôs compensar aquele país, mas a organização do ESC serviria certamente de consolo e indemnização.

Saúde: O Azerbaijão tem um ranking invejável: participou pela primeira vez em 2008, tendo conseguido um 8º lugar na final, ao que se seguiu um 3º lugar, em 2009. É obra! E a receita é simples: apresentar uma canção orelhuda, ainda que de qualidade e criatividade duvidosas, que apelem ao maior número de pessoas possível. Para conseguir isto é importante baixar a fasquia, procurar o mínimo denominador comum. Mas também é necessário estar muito atento ao que se passa lá fora. Um país que opte por ignorar totalmente a sua identidade cultural e tradição musical, vendendo-se à indústria americanizada da música pré-fabricada, não pode dar-se ao luxo de fazer escolhas aleatórias. Tem que saber escolher os melhores e os que lhe dão maiores garantias de sucesso. O Azerbaijão tem na Rússia (e em Dima Bilan) um bom professor e parece ter a lição bem estudada.

Amor: O Azerbaijão pode não ter uma diáspora significativa, mas se há coisa que não lhe falta é amigos. E estes têm muito amor para dar. A começar pela Turquia, cujos 12 pontos estão garantidos, quer na semi-final quer na final.

Na mesma semi-final estarão também a Lituânia, a Arménia, a Ucrânia e a Geórgia, todos eles membros do bloco ex-soviético. E duvido que a introdução de jurados profissionais venha a fazer qualquer diferença nas manifestações públicas de afecto entre estes países.

Já os eurofãs não parecem particularmente apaixonados por Drip Drop, preferindo as grandes baladonas clássicas ou os hinos schlager e euro-pop. Mas os eurofãs já provaram à exaustão que apenas se conseguem representar a si próprios, por muito a sério que se levem.

Não tenho dúvidas que para a esmagadora maioria dos votantes europeus, completamente alheios a estas tradições, seja muito mais motivadora uma canção que lhes é bastante familiar, porque baseada nos modelos musicais que passam quotidianamente nas rádios e televisões.

Afinal Drip Drop não passa de um mashup (ver Glee) de Molitva (Sérvia 2007) com uma qualquer canção da Rihanna/Christina Aguilera/diva pop do momento, inspirada em Believe (Rússia 2008) e nos seus arranjos Timbaland.

A falta de originalidade, criatividade ou identidade cultural é um fenómeno presente na sociedade ocidental, e a Eurovisão não é alheia a essa tendência. Aliás recompensou estratégias desse calibre sistematicamente, sendo 2008 um dos melhores exemplos. 2010 não deverá ser diferente.

[Opinião] EuroFlan: Tourada no Campo Pequeno

Domingo, 7 de Março de 2010



















Foto: freerepublic.com

É estranho que depois de uma das melhores edições de sempre do Festival da Canção, quando tento escrever um resumo de tudo o que aconteceu (e foi muito!) a impressão mais viva seja dos últimos minutos do espectáculo de ontem. Talvez por terem sido os últimos minutos. Talvez por terem sido os mais negativamente impressionantes.

Se há coisa que me fascina é a dinâmica de grupos. Percebo que pessoas com gostos ou interesses comuns juntem esforços.
Já não percebo é como pessoas, que individualmente parecem normais, com algum bom senso, quando se juntam a um grupo de fãs, a uma claque organizada ou coisa do género, se transformam em animais.

Não foi um fenómeno inédito, mesmo para o Festival, mas não sei se alguma vez atingiu tais proporções. Parece-me importado, juntamente com alguns concorrentes de reality shows televisivos, e deveria fazer parte de outro universo.

Apoiantes da Vanessa e admiradores da Catarina, (entre outros, mais discretos ou tímidos), degladiaram-se em tudo o que é fórum e rede social. Estavam lá, incondicionais, a apoiar a sua intérprete. Trouxeram cartazes, bandeiras, faixas, mas esqueceram-se de trazer bom senso, educação, honestidade e carácter. Chegaram a ser ofensivos para com os outros concorrentes, colocando em causa a honra e o bom-nome de pessoas e instituições. Quando não gostavam do que liam, tentavam matar o mensageiro.
Não dignificaram aqueles a quem apoiavam e não dignificaram o espectáculo.

Talvez ninguém lhes tenha explicado que o Festival da Canção tem 46 anos de história.
Que não é o Ídolos. Que não tem por objectivo escolher um qualquer adolescente que imita muito bem o produto acabado da banda/cantor da moda. O Festival da Canção existe para eleger a melhor canção para representar a RTP, e Portugal, na Eurovisão, com tudo o que isso implica.

O Festival da Canção não é lugar para claques cegas, surdas e acéfalas. Isso é nos estádios de futebol. O Festival da Canção é um lugar onde apreciamos a música, quem a escreve e quem a interpreta. O Festival é um lugar onde as opiniões não se sobrepõem ao respeito mútuo. O Festival é um lugar onde se aplaude os vencedores e se homenageia todos os que participaram. No Festival aceita-se a derrota com dignidade e um sorriso, e reconhece-se a vitória com humildade e emoção. O Festival é feito por técnicos e artistas, para benefício e entretenimento dos espectadores. O Festival tem regras claras, aceites por todos os que concorrem, os que votam, os que assistem.

Que não se goste dos resultados, até posso perceber.
Que não se aceite um resultado de acordo com as regras, que se apupe o legitimo vencedor, que se esgrimam argumentos irracionais, que se organizem petições espúrias, e se clame por vitórias na secretaria, é bem revelador da falta de carácter e de formação que abundou nas bancadas do Campo Pequeno. Uma verdadeira tourada, no pior sentido do termo.

Sei bem como é injusto generalizar, mas prefiro correr esse risco, a deixar passar em branco o comportamento indigno de uma sonora parte dos espectadores que estavam, ontem à noite, no Campo Pequeno. E dos que continuam aos gritos nas muitas páginas dedicadas ao assunto.

Só se sentirão atingidos, pelas minhas palavras, aqueles que, de alguma forma, se revejam nos actos aqui descritos. Para esses só tenho mais uma mensagem:
são livres para nunca mais voltar!

A canção “Há dias assim” não era a minha preferida. Não votei na Filipa. Não gostei e não percebi os votos de alguns jurados.

A canção “Há dias assim” venceu o Festival da Canção com toda a legitimidade. A Filipa foi a mais votada, de acordo com as regras. Será a representante da RTP, de Portugal, na Eurovisão. Será a minha representante, sei que o fará com enorme dignidade e contará com o meu total apoio.

FC 2010: audiências da final

Fonte: Mediamonitor
Foto (c): RTP

A final do Festival da Canção 2010 foi, ontem, sábado, o sexto programa mais visto do dia da televisão portuguesa, com 9,3% de rating e 28,3% de share, valores de audiência superiores aos registados nas semifinais (que rondaram os 7% de rating e os 20% de share). Este resultado colocou a final do Festival no pódio dos programas mais vistos da RTP (o 3.º programa mais visto do canal, ontem) e ajudou estação pública a conseguir a liderança do dia. No total do dia a RTP obteve 27,7% de share, contra os 25,7% da TVI e os 21,6% da SIC. Quanto à concorrência directa à hora do Festival, a TVI, mais uma vez, liderou com as suas novelas, enquanto a SIC se manteve mais permeável à transferência de público da sua série Lua Vermelha para o Festival. Estes são valores positivos para a RTP, pois superam aquilo que a estação está habituada a fazer aos sábados (quando não há futebol). E, apesar de as audiências das duas semifinais não terem superado as expectativas, mostram que o Festival da Canção ainda está vivo, ainda faz sentido, e ainda prende espectadores em frente à televisão, mesmo com a infinita oferta de conteúdos audiovisuais que existe hoje em dia. A RTP, por seu lado, está de parabéns pelo esforço renovado, porque continua a acreditar no Festival. Porque sente que o desinteresse e descredibilização do Festival está, aos poucos, a dissipar-se. Porque sente que existe uma nova geração que segue o Festival com entusiasmo em multiplataforma (internet, redes sociais, telemóveis). Porque sabe que o Festival é o maior tesouro televisivo que um canal de televisão pode ter, pela sua intemporalidade e capacidade de renovação. Porque sabe que o Festival é, foi e será um grande programa de entretenimento sem ímpar no Mundo inteiro.

Leia a análise feita às audiências da 1.ª semifinal do Festival da Canção 2010 AQUI.
Leia a análise feita às audiências da 2.ª semifinal do Festival da Canção 2010 AQUI.

FC 2010: audiências da 2.ª semifinal

Sexta-feira, 5 de Março de 2010

Fonte: Mediamonitor
Foto (c): RTP

A segunda semifinal do Festival da Canção, ontem à noite, conseguiu, em termos de audiências televisivas, valores ligeiramente superiores aos registados na terça-feira, na primeira semifinal. Ontem, o Festival da Canção 2010 figurou na tabela dos 15 programas mais vistos do dia, mais precisamente no 11.º lugar. Obteve no total 7,0% de rating e 20,0% de share. Na terça-feira, a primeira semifinal obteve valores muito próximos: 7.1% de rating e 19.1% de share. Quanto à concorrência, no mesmo horário, a TVI manteve os resultados elevados a que está habituada, com as suas novelas a rondar os 14% de rating e 35-40% de share; já a SIC voltou a ser beliscada, embora a novela Perfeito Coração tenha sofrido uma perda de público menos acentuada que na terça-feira. Ainda assim, a segunda semifinal do FC2010 foi o quarto programa mais visto do dia na RTP. Uma das explicações para estas audiências do Festival (que, embora não baixem os números a que a RTP está habituada, também não superaram as expectativas) pode ser o facto de as semifinais terem sido transmitidas durante a semana, sendo difícil quebrar rotinas a um público que está habituado a um determinado género televisivo (leia-se novelas). Estes números poderão, amanhã, sábado, na grande final, ser um pouco diferentes pela positiva. O público que vê televisão ao fim-de-semana é mais vasto (em termos quantitativos) e, por isso, mais ecléctico. Para além disso, é normal a final chamar mais a atenção dos espectadores do que as semifinais.
Esta análise tem apenas em conta as audiências medidas no universo de pessoas a ver televisão, não contabilizando as muitas outras que seguiram o espectáculo através da Internet e do telemóvel. Embora os "espectadores-internautas" sejam em número reduzido, em comparação com o universo dos tradicionais espectadores televisivos, muita da dinâmica actual do Festival deve-se a um despertar, nas camadas mais jovens, do gosto de acompanhar o Festival em permanência através da Internet. Este é um fenómeno que certamente terá uma expansão enorme nos próximos anos, o qual a RTP já percebeu e ao qual já lhe está a responder (através da aposta nas redes sociais e na transmissão online do Festival).

Leia a análise feita às audiências da 1.ª semifinal do Festival da Canção 2010 AQUI.

Amanhã é dia de festa


Amanhã é dia de festa.
É amanhã o culminar de um, desta vez mais longo que o habitual, processo de selecção nacional.
As músicas estão escolhidas. Há para muitos gostos. Mesmo para gostos que ninguém, ou muito poucos, julgavam poder vingar num evento como estes. Por mim acho bem. Quanto mais diferentes e variados os temas melhor será o futuro do FC. Isto é, o futuro não passa seguramente por colar o FC a um, qualquer que seja, género musical ou opção estética. Se a isso somarmos qualidade (nem sempre tem acontecido) ainda melhor.
Os dados estão lançados, mas o tabuleiro está longe de ser uma superfície lisa onde a estatística e o cálculo probabilístico podem ter algum papel. Há relevo acidentado, buracos, acidentes naturais ... o sentimento de quem segue por fora ou de quem está embrenhado no concurso é mesmo: incerteza! Ninguém, de bom senso, pode face ao leque de músicas e ao método de voto fazer grandes projecções. Especulações claro que sim. Até animam foruns, chats e conversas presenciais.
O movimento daqueles a quem se convencionou chamar fãs está, à semelhança aliás do que tem acontecido, nos 2 últimos anos ao rubro. Talvez por isso, começa-se a dar alguma importância ao fenómeno. O clima é de militarismo marcado e não sei se serve lá muito bem os objectivos a que se propõe. Tenho o prazer de conhecer alguns dos reais protagonistas desta festa e duvido bastante que se revejam em muitas das coisas que se têm dito em seu nome nas mais diversas plataformas. É que não se pode comparar o incomparável, o valor intrínseco de uma coisa não anula o valor intrínseco de outra ainda que, no contexto, cada um lhes dê um valor relativo diferente. Mas as questões são, de qualquer das formas, prévias a tudo isto e, a meu ver, sintetizam-se em duas. Primeiro, estamos a falar de pessoas, profissionais, todos eles empenhados em fazer trabalhos válidos e que sei, apesar do espírito competitivo, se respeitam mutuamente e não merecem a toada, quase "hooligan", que às vezes parece insinuar-se. Depois, e pasmem-se, isto é só um concurso de música. Notável, histórico, emocionante, empolgante ... ainda assim só um concurso.
Por isso amanhã estarei, estaremos muitos, no Campo Pequeno. Espero e desejo um grande espectáculo de entretenimento. Espero divertir-me, arrepiar-me, levantar-me em ovação o maior número de vezes possíveis. Desejo a todos, onde quer que estejam, o melhor FC de sempre (é essa, afinal, a mensagem encriptada no QR code).
Isto é só um concurso, já vos tinha dito... mas é tão fixe :)

FC2010: audiências da 1.ª semifinal

Quarta-feira, 3 de Março de 2010

Fonte: Mediamonitor
Foto (c): RTP

Ontem realizou-se a primeira semifinal do Festival da Canção 2010 e as audiências do programa não foram muito positivas, apesar de não terem baixado os números de audiência a que a RTP 1 está habituada no horário nobre. Vamos a números. O Festival da Canção foi transmitido na RTP 1 entre as 21h34 e as 23h15. No total, o programa fez 7.1% de rating e 19.1% de share. Durante este período, a concorrência comportou-se assim: as novelas da TVI Meu Amor (que começou às 21h32) e Deixa Que Te Leve (que começou às 22h20) mantiveram os elevados números a que estão habituadas: 15,8% de rating e 39,8% de share para a primeira e 14,7% de rating e 40,4% de share para a segunda. A SIC, pelo contrário, já sofreu com o Festival da Canção, tendo-se assistido a uma transferência de público desta para a RTP à hora do Festival. A Grande Reportagem da SIC (cujo final apanhou o início do FC) apresentou 8,1% de rating e 20,1% de share; quanto à novela Perfeito Coração (que começou às 22h00), fez 7,2% de rating e 18,7% de share, o que é um resultado abaixo daquilo a que esta novela está habituada a fazer (costuma rondar os 25% de share, mesmo contra as novelas da TVI). Estes números, apesar de não serem desoladores para a RTP, mostram que, embora todo o esforço que a estação fez este ano para recuperar um grande espectáculo de televisão como é o Festival da Canção, talvez seja preciso repensar duas coisas: primeiro, a promoção feita ao programa, que, se tivesse sido mais visível, provavelmente mais público teria sido captado; segundo, a realização das semifinais a uma terça e quinta-feira, ou seja, a meio da semana, poderá ter afastado muito público que trabalha e que tem mais tempo para ver televisão ao fim-de-semana (aliás, o Campo Pequeno ontem estava longe de estar cheio). Bem sabemos que do ponto de vista financeiro é muito mais rentável alugar uma sala de espectáculos e fazer os três programas apenas numa semana do que em duas ou três semanas, no entanto, estes são os pontos fundamentais que a RTP terá de repensar para o ano se quiser ter um programa de televisão rentável do ponto de vista das audiências (a RTP, apesar de ser um canal de serviço público, tem publicidade e por isso estas questões se levantam). Vamos agora ver se estes números se repetem na segunda semifinal, ou se, porventura, eles não terão sido fruto do "efeito-novidade" da primeira semifinal.

[Editorial] Lusitana Paixão

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010


Foto: EBU/UER

Um Pouco de História

Corria o ano de 1964. O mundo contorcia-se com a tensão da Guerra Fria, enquanto os E.U.A e a U.R.S.S. competiam pelo domínio do universo. Os Beatles arrancavam para o sucesso planetário. Grécia e Turquia iniciavam um longo conflito pela soberania da ilha de Chipre. Martin Luther King recebia, em Oslo, o Prémio Nobel da Paz, ao passo que Nelson Mandela, vítima do sistema de apartheid, na África do Sul, era condenado a prisão perpétua. O arquipélago de Malta tornava-se independente.

Em Portugal era Salazar quem ditava as leis e teimava em alimentar uma guerra contra as populações das colónias africanas. Foi também em 1964, mais precisamente a 2 de Fevereiro, que se realizou o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, tendo por objectivo escolher o candidato português ao Concurso Eurovisão da Canção. António Calvário foi o eleito para cantar Oração, na Dinamarca.


Como tudo começou

Pelo palco do Tivoli Concert Hall de Copenhaga desfilaram 16 países, e o desconforto pela admissão de Portugal e Espanha no concurso era bem patente. Um elemento da audiência chegou a invadir o palco exibindo um cartaz onde se podia ler “Boicotem Franco e Salazar”. Por esse motivo, ou porque a canção era demasiado pomposa para um festival, Portugal estreou-se na última posição, com 0 pontos.

E assim começa a longa história do Festival da Canção e da participação portuguesa no Festival da Eurovisão. São 46 anos de histórias, umas emocionantes, outras caricatas, alguns pontos altos, muitas pontuações baixas, mas uma esperança constante.


Um grande, grande amor

Os formatos e as regras foram variando ao longo dos anos. O Festival da Canção foi rebaptizado e reformulado por diversas vezes, chegou a ser substituído por selecções internas e outros programas televisivos. Portugal não participou no Festival da Eurovisão em 1970, 2000 e 2002.

Largas centenas de artistas participaram no Festival. Alguns atingiram o estrelato, mesmo fora de portas. Outros tantos voltaram ao anonimato. E há também aqueles que participaram por várias vezes e que, independentemente dos resultados, passaram a fazer parte do património do evento e da memoria colectiva e afectiva dos espectadores.


Não sejas mau para mim

Portugal nunca venceu o Festival da Eurovisão. Até ao ano de 2006 partilhava esse infame destino com a Finlândia. Hoje somos o mais antigo participante que nunca alcançou a vitória. Ou o pódio. A nossa melhor classificação é um suado 6º lugar.

Explicações e teorias para este estado de coisas há muitas. Todas subjectivas e insuficientes.

O facto é que Portugal não tem uma dimensão política e cultural marcante, no âmbito europeu. Também não temos um coro de vizinhos com uma história, uma cultura e uma língua comuns. Temos nuestros hermanos de Espanha e Andorra, e mesmo esses nem sempre fiéis. Até a nossa diáspora é particularmente reduzida e bem integrada nas sociedades de acolhimento, se comparada com a de outros países.


Silêncio e tanta gente

Mas não basta olhar lá para fora. Também é um facto que a RTP, durante anos, desvalorizou os festivais. Não se esforçou, não investiu, não tentou manter vivo o brilho de um evento que chegou a esvaziar as ruas do país.

Por outro lado a própria comunidade artística portuguesa começou a olhar para o Festival com sobranceria e desprezo. Os artistas mais conceituados, os mais criativos, os mais modernos, os mais populares, recusam-se a participar. Rejeitam a competição, desdenham de outros estilos musicais e, sobretudo, receiam o insucesso.


O vento mudou

Mas também é verdade que em anos recentes se tem sentido uma brisa de mudança. A esse fenómeno não é alheia a tomada de consciência e mobilização das plataformas de fãs. E os resultados positivos parecem ter motivado todos os agentes. Nomeadamente a RTP.

Esta revolução silenciosa parece ter ganho, em 2010, uma força insuspeita. A RTP, a julgar pelas muitas noticias que, aos poucos, vai deixando sair, renovou, rejuvenesceu, reinventou o Festival da Canção. São as páginas e a selecção online e as emissões Web e em HD. São 24 canções, espalhadas por 3 grandes galas. É o palco do Campo Pequeno e convites para os milhares de aficionados. É a promessa de um grande espectáculo que, pela dimensão e qualidade, poderá vir a ser comparado a outras finais nacionais míticas, como o Melodifestivalen sueco, por exemplo.


Deixa-me sonhar (só mais uma vez)

De tudo isto fica a sensação de que a RTP poderá, finalmente, estar a transmitir um sinal de maturidade e a manifestar o sério interesse em vir a organizar o Festival da Eurovisão em solo português, a curto prazo. Já faltam poucos dias para verificar se a promessa se cumpre.

Em todo o caso, se há alguma ilação a retirar de toda esta história é a de que ser fã do Festival, em Portugal, é sinónimo de esperança. E como diz a sabedoria popular a esperança é a última a morrer.
 

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